{"id":1667,"date":"2023-07-21T14:07:08","date_gmt":"2023-07-21T17:07:08","guid":{"rendered":"http:\/\/revistaconthato.com.br\/?p=1667"},"modified":"2023-08-05T20:58:15","modified_gmt":"2023-08-05T23:58:15","slug":"movimento-literario-cadeira-1-2-fio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaconthato.com.br\/index.php\/2023\/07\/21\/movimento-literario-cadeira-1-2-fio\/","title":{"rendered":"Movimento Liter\u00e1rio Cadeira 1\/2 Fio"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O ENCANTO PELA LEITURA.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Advogado, p\u00f3s-graduado em Filosofia e Teoria do Direito, <strong>Schleiden Nunes-Pimenta<\/strong> tem 34 anos nasceu em Campo Belo &#8211; MG. Come\u00e7ou a escrever aos 18, quando venceu seu primeiro concurso liter\u00e1rio: um 1\u00ba lugar em um pr\u00eamio de contos promovido pela Universidade Federal da Grande Dourados. Desde ent\u00e3o, escreveu mais de trezentos contos, duzentas poesias, uma centena de cr\u00f4nicas e uma dezena de romances, no que somam hoje trinta livros (dentre publicados, e n\u00e3o publicados). Possui obras escritas em todos os g\u00eaneros liter\u00e1rios, da prosa ao cordel, da n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o \u00e0 fantasia, publicadas em todas as regi\u00f5es do Brasil, em diversas academias de letras, editoras, revistas, coletivos liter\u00e1rios, entidades educacionais e da sociedade civil. Dentre alguns dos pr\u00eamios mais recentes destacam-se a sele\u00e7\u00e3o no Pr\u00eamio M\u00e1rio Quintana, em 2021, no FEMUP, em 2022, e no Yoshio Takemoto, neste ano. Dentre suas obras publicadas solo est\u00e3o <strong>\u201cUm dedo de prosa e um gole de justi\u00e7a\u201d <\/strong>(Contos\/ Ed. Lumen Juris), <strong>\u201cA Bruxa de Paris\u201d <\/strong>(Romance\/Cartola Ed.), <strong>\u201cDe volta \u00e0 Recoleta\u201d<\/strong> (Novela\/Caravana Ed.), <strong>\u201cVermelho como Brasa\u201d<\/strong> (Poema\/Ed. Folheando) e <strong>\u201c\u00e5ngelo\u201d<\/strong> (Novela\/Ed. Toma a\u00ed um Poema). Um escrevedor mineiro, vegano, defensor da natureza, dos esp\u00edritos que abarcam todo tipo de vida e dos direitos de todos os animais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O CACHORRO<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Falta de avisar n\u00e3o foi. Era o segundo dia seguido que o cachorro do vizinho n\u00e3o parava de latir, de chorar, e n\u00f3s fizemos o que era mais adequado fazer: ligar para o dono.<\/p>\n\n\n\n<p>Hav\u00edamos nos mudado para esta casa recentemente e mal conhec\u00edamos quase nenhum vizinho. Em verdade, n\u00e3o gost\u00e1vamos desse movimento, de conhecer novas pessoas em tais situa\u00e7\u00f5es, como se fosse uma obriga\u00e7\u00e3o levar um bolo ou um assado para pedir permiss\u00e3o de moradia. Sem isto, parecia que a privacidade era maior. Contudo, quando o cachorro dele passou a madrugada inteira chorando, n\u00e3o tivemos outra escolha sen\u00e3o a de contact\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Prezando por n\u00e3o criar qualquer conflito, procuramos nos expressar da maneira mais conciliat\u00f3ria poss\u00edvel. Conseguimos o n\u00famero do seu celular com um amigo, que tamb\u00e9m era policial militar, e entramos em contato com o desconhecido na manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o hav\u00edamos dormido. As olheiras, ainda agora, existem; as p\u00e1lpebras pesam, de sono e de incredulidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Um muro separa nossas casas. A nossa, comum; a dele, estilo ch\u00e1cara: tem galinheiro, tem canteiro, tem o cercadinho onde o cachorro fica preso \u2013 o que j\u00e1 n\u00e3o aprovo. N\u00e3o aprovo, mas, muito a contragosto, relevo o espa\u00e7o do cercado se for grande, se o bicho for bem alimentado, se tiver carinho. Embora ainda assim n\u00e3o me agrade. Tolero, mas sem cobertura para proteg\u00ea-lo em dias de chuva?<\/p>\n\n\n\n<p>A chuva que caiu na noite anterior foi um ponto alegado por H\u00e9lio, o vizinho. Disse que ele parecia ter medo de qualquer garoa. Segundo ele, o cachorro, a quem chamava de <em>parceiro<\/em>, estava mimado. Recentemente, sofrera um acidente, precisou de cuidados, e o dono se viu obrigado a deixar o cercado aberto em vistas de suas novas necessidades. Agora, que j\u00e1 estava curado, o c\u00e3o voltou para o cercado e estranhou pois havia se acostumado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mal&#8230; <em>acostumado<\/em>&#8230; \u2013 ele frisou ao telefonema.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos esfor\u00e7amos bastante, ou tentamos, explicar nossa situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Antes de contactarmo-lo, vasculhamos suas redes sociais. Parecia um sujeito bom; parecia realmente gostar de animais. A isto fazia coro suas fotos no rio, com o cachorro, com outros bichos, sorrindo e chamando-os de <em>par\u00e7as<\/em>. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 assim. H\u00e1 amor, imagino, mas ao estilo antigo. H\u00e1 carinho, mas distanciado. N\u00e3o \u00e9 como temos para com os nossos, n\u00e3o \u00e9 v\u00ea-los como filhos. N\u00e3o \u00e9 como permitir que tomem chuva e chorem toda a madrugada e n\u00e3o se importe e somente diga \u201ct\u00e1 mal-acostumado\u201d, rindo. N\u00e3o \u00e9 como v\u00ea-los s\u00f3 como c\u00e3es, mas, sim, enquanto seres repletos de consci\u00eancia e de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um belo, entretanto gaguejado, discurso \u2013 ou tentativa de resolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de conflito. E fa\u00e7o a deixa, a voc\u00eas, num tom de voz que n\u00e3o conseguimos deixar para ele: n\u00e3o tenha filho, de que esp\u00e9cie for, se n\u00e3o puder lev\u00e1-lo \u00e0 sua cama quando estiver amedrontado; se n\u00e3o puder p\u00f4-lo dentro de casa em dias de tempestade; se s\u00f3 oferecer a ele as sobras do almo\u00e7o de antes de ontem \u00e0 tarde; se ante o seu choro, que perdura por horas, n\u00e3o sentir nada sen\u00e3o a gra\u00e7a de cham\u00e1-lo de mimado ou mal-acostumado.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, um pouco at\u00e9 que nos acalentamos. Afinal, ele parecia mesmo gostar de bichos \u2013 apesar de \u00e0 moda antiga. Tem\u00edamos que o c\u00e3o tivesse prendido a pata em algum buraco, ou se enforcado, ou se machucado, ou estivesse sem comida. Ao menos soubemos, durante o telefonema, que simplesmente se tratava de um c\u00e3o <em>mimado<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Disse-nos, o tal do H\u00e9lio, em tom de riso: \u201cah, voc\u00eas est\u00e3o exagerando\u201d, que, qualquer coisa, poder\u00edamos cham\u00e1-los pelo interfone mesmo. Que seu pai mal sa\u00eda de casa, estaria a disposi\u00e7\u00e3o acaso precis\u00e1ssemos e que, no outro dia, ele chegaria da pescaria para conversarmos. No mais, o cachorro que chorasse at\u00e9 cansar; o cachorro que deixasse o mimo de lado. Em \u00faltimo caso, fora a noite insone e toda a preocupa\u00e7\u00e3o a que estar\u00edamos fadados, de certo modo foi reconfortante saber que havia mais algu\u00e9m naquela casa.<\/p>\n\n\n\n<p>No restante da manh\u00e3, n\u00e3o houve mais choro, e pudemos enfim dormir, at\u00e9 que ao meio-dia o cachorro voltou a chorar e a latir. N\u00e3o s\u00e3o descrit\u00edveis as notas daquele violino agudo, melanc\u00f3lico, que ele fazia; assim como para aqueles, que cuidam dos animais \u00e0 moda antiga, n\u00e3o deve ser compreens\u00edvel como aquela m\u00fasica pune, tortura os ouvidos deste vegetariano que vos conta.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo telefonema foi de enfezar. O amistoso tornou-se final de campeonato. Quando notamos, amea\u00e7\u00e1vamos o policial aposentado com den\u00fancias na delegacia \u2013 em que ele havia se aposentado \u2013 e na secretaria de direito ambiental. Apelamos at\u00e9 para os <em>instagram<\/em> de <em>influencers<\/em> de prote\u00e7\u00e3o animal caso a lei n\u00e3o nos abarcasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, pareceu n\u00e3o se importar em demasia nem quando cogitamos a hip\u00f3tese de o cachorro morrer. A uma da tarde, seu choro estourava nossos t\u00edmpanos. N\u00e3o suportamos. Saltei o muro, desequilibrado e rolando na terra molhada. Aproximei-me do cercado, e, ao chegar mais perto, o cachorro foi no sentido contr\u00e1rio. Como que se me guiasse, como se quisesse me avisar de algo, latiu com as for\u00e7as que ainda tinha na dire\u00e7\u00e3o da porta da cozinha, onde o corpo do pai de H\u00e9lio h\u00e1 dois dias estava estirado.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ENCANTO PELA LEITURA. 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