{"id":5343,"date":"2023-12-02T23:45:53","date_gmt":"2023-12-03T02:45:53","guid":{"rendered":"https:\/\/revistaconthato.com.br\/?p=5343"},"modified":"2023-12-02T23:53:51","modified_gmt":"2023-12-03T02:53:51","slug":"terra-por-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistaconthato.com.br\/index.php\/2023\/12\/02\/terra-por-capital\/","title":{"rendered":"Terra Por Capital"},"content":{"rendered":"\n<p>Schleiden Nunes-Pimenta (tamb\u00e9m conhecido por &#8220;X&#8221;). Um escrevedor mineiro, vegano, defensor da natureza, dos esp\u00edritos que abarcam todo tipo de vida e dos direitos de todos os animais. Advogado e escritor, tem obras publicadas e premiadas por todo o Brasil. Cria em todos os g\u00eaneros liter\u00e1rios, sempre em busca do novo de si mesmo, mas sempre em contextos de cr\u00edtica social e que flertam com o absurdo. Autor de \u201cContos Jur\u00eddicos\u201d (LumenJuris, 2016), \u201cA bruxa de Paris\u201d (Cartola, 2021), \u201cDe volta \u00e0 Recoleta\u201d (Caravana, 2022), \u201cVermelho como Brasa\u201d (Folheando, 2022) e \u201c\u00e5ngelo\u201d (Toma a\u00ed um Poema, 2023), \u00e9 um vegano defensor do meio ambiente e dos direitos de todos os animais. Membro Associado Comum da SODEMA.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5347\" srcset=\"https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-683x1024.jpg 683w, https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-200x300.jpg 200w, https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-768x1152.jpg 768w, https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-1366x2048.jpg 1366w, https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-1920x2880.jpg 1920w, https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-1170x1755.jpg 1170w, https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-585x877.jpg 585w, https:\/\/revistaconthato.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Foto-1-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Andr\u00e9 adorava a sua ro\u00e7a.<br>Qual Andr\u00e9? N\u00e3o importa. Isso \u00e9 s\u00f3 uma cr\u00f4nica.<br>Importa \u00e9 que ele adorava a sua ro\u00e7a.<br>N\u00e3o era grande, mas tinha hist\u00f3ria. Um teco de terra, no meio de Minas, gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o entre filhos, irm\u00e3os e tios.<br>Algumas vacas \u2013 tr\u00eas, no m\u00e1ximo. O galinheiro, e, mais acima, mais abaixo, uns metros de milho e de mandioca, batata-doce, espalhadas no terreiro, coletadas j\u00e1 para o almo\u00e7o ou para o domingo. A tal subsist\u00eancia, hoje na moda, que em verdade sempre existiu antes da hist\u00f3ria.<br>\u00c9 assim que acontece, at\u00e9 quando houver algu\u00e9m para contar.<br>Andr\u00e9 levou sua fam\u00edlia at\u00e9 que Edvaldo, um empres\u00e1rio da cidade, contratou seus cinco filhos um a um. O mo\u00e7o mexia com gr\u00e3o, sacaria, tudo um pouco mais carro de frete. Meteu-os num caminh\u00e3o e os p\u00f4s a trabalhar.<br>Viver na cidade era ser chic, era ser safo; na ro\u00e7a, ficavam os ignorantes, os bobos e os mal-educados. Fora esse status, havia o sal\u00e1rio. Tinham um patr\u00e3o, o que era chic por igual. emprego fixo, holerite, e viajavam noite e dia, hora extra na camaradagem, sem tempo para a fam\u00edlia embora\u2026 Mas o sal\u00e1rio m\u00ednimo? Eis garantido.<br>Sobreviviam.<br>Na ro\u00e7a, que ent\u00e3o s\u00f3 restara para o almo\u00e7o de domingo, sobrara Andr\u00e9 mais sua esposa, que, al\u00e9m de tudo, lidava agora com a clientela fraca; com o comprador de queijo e de espiga. E n\u00e3o demorou a que a ro\u00e7a, j\u00e1 sem os filhos e os netos, ficasse seca at\u00e9 de mandioca.<br>O patr\u00e3o dos filhos, amigo da fam\u00edlia, convenceu Andr\u00e9 a mudar-se tamb\u00e9m, pois, o que teria ali, longe de todos, ele mais a esposa, no findar da vida?<br>Na cidade, tinha a feira; na cidade, tinha parab\u00f3lica. Tinha asfalto e uma motinha.<br>Ir para a cidade.<br>Meses depois, Andr\u00e9 veio a ter que Edvaldo \u00e9 quem comprara suas terras, em nome de terceiros, e nunca lhe falara nada. Ele \u00e9 quem havia interceptado, inclusive, tempos atr\u00e1s, o seu antigo comprador de queijos que o levou \u00e0 crise financeira.<br>Planejara.<br>Hoje, os filhos de Andr\u00e9 trabalham nas terras que j\u00e1 foram suas; plantam mandioca, milho, puxam leite, a um sal\u00e1rio base enquanto pagam vinte anos de financiamento de suas casas populares. Gra\u00e7as a Edvaldo, gra\u00e7as a ele, que deu azo ao contrato.<br>Est\u00e3o felizes. Trabalhar\u00e3o para Edvaldo at\u00e9 a velhice.<br>N\u00e3o h\u00e1 quem os conven\u00e7a do contr\u00e1rio. Pois, Edvaldo at\u00e9 fez a boa vontade de pagar o caix\u00e3o de Andr\u00e9, seu vel\u00f3rio. Homem do b\u00e3o.<br>Dizem que foi desgosto, o velho. Secou seu cora\u00e7\u00e3o.<br>Desenterrou.<br>Foi embora da cidade, do jeito que p\u00f4de, ap\u00f3s a invis\u00edvel luta que ele nem imaginou estar a lutar versus o capital.<br>Um amigo de Edvaldo, uma vez, perguntou a ele quem era o antigo propriet\u00e1rio daquelas terras, admirado com o pre\u00e7o baixo que pagou por elas \u00e0quela \u00e9poca. O empres\u00e1rio pensou, co\u00e7ou o queixo, esfor\u00e7ou-se mesmo, at\u00e9 concluir que o sujeito chamava-se Antero.<br>Saudoso Antero\u2026<br>H\u00e1 quem v\u00e1 se lembrar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Schleiden Nunes-Pimenta (tamb\u00e9m conhecido por &#8220;X&#8221;). 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